quinta-feira, novembro 17, 2005

De NEEs, dificuldades de aprendizagem e currículos alternativos

De regresso às (in)confidências e correndo o risco de poucos lerem este post extensíssimo, venho aqui debitar mais umas ideias soltas...

Na sequência daquilo que a Sr.ª Ministra da Educação ontém trouxe a público, no tocante aos alunos com repetências em anos anteriores e em risco de retenção, vi-me aqui empurrado a despender de algum tempo (do pouco que ainda vou tendo - porque será?) para abordar algumas considerações e ideias. Coloco aqui a questão se o encaminhamento destes alunos deverá ser equacionado, à partida, a partir do próximo mês de Janeiro para as tais vias profissionalizantes, que ao certo não sabemos o que serão, pecando-se aqui pela indefinição, o vago…

A minha primeira consideração irá para aquilo que se considera ser, neste momento, um(a) educação/sistema inclusivo, em particular no nosso 3ºCEB. A inclusão, pelo menos tal como é encarada neste momento, joga mal com as diferenças sociais e cognitivas dos nossos alunos. Temos alunos muito heterogéneos que consequentemente tornam a tendência homogeneizante da educação mais exclusiva que inclusiva. Isto torna o abandono escolar quase que uma tendência inevitável.

A discrepância dos interesses dos alunos face à escola demonstra um certo desfasamento do sistema escolar e, por outro lado, uma certa desordem social e familiar e, consequentemente, cultural, também, (colando-me aqui ao conceito inglês de «disorder»), repercutindo-se estes últimos inevitavelmente nas tão apregoadas dificuldades de aprendizagem (DA). Esta desordem sócio-familiar, que também é sócio-económica, existe em função do meio em que o aluno está enculturado, em oposição à escola que representa um meio social e cultural diferente. Cabendo então definir DA, serão estes interesses divergentes ou diferentes dos inculcados pela escola? Não sei, quem saberá?

Estas questões trago-as aqui apenas porque ando cansado de ver alunos com NEE e Turmas de Currículos Alternativos (CA) que mais parecem em férias do que propriamente a tirar proveito da escola, e deste ponto até ao abandono escolar é um passo. Normalmente, dever-se-ia proporcionar a estes alunos de CA uma componente de formação vocacional, tal como a legislação prevê, o que excepcionalmente se verifica. Estes alunos são fortemente manuais, logo virados para a prática e não para a teoria. Enquanto professor de línguas estrangeiras, deparo-me frequentemente com a dificuldade não tanto no quê mas antes no como, i.e., não nos conteúdos mas antes no processo de os transmitir. Transmitir uma língua estrangeira a alunos com DA não é pêra doce, mesmo sabendo que «todo o burro come a palha, sabendo-lha dar». É uma questão de teoria versus prática, ou como se ensina prática sem teoria? Daí que ache, voltando ao início das minhas considerações, que a senhora ministra em vez de ressuscitar a avaliação sumativa extraordinária e a avaliação especializada, deveria antes definir o que são alunos de risco e com DA; redefinir os Cursos de Educação e Formação com equivalência ao 9º ano, reequacionando o desenho dos currículos para estes cursos, retirando-lhes o excesso de carga teórica; em suma, reformular o conceito vigente de Educação Inclusiva para eliminar o insucesso escolar, porque não existe o aluno-padrão.

Já vai chegando a hora de acabar com os guetos na educação, porque já se chegou à conclusão que os bairros sociais só trazem problemas e nenhumas soluções. As Turmas de Currículos Alternativos não são mais que isso. Como se qualifica uma população para o activo? Preparando-as apenas para o ensino secundário e superior? A utilização diária de chavões, por Suas Excelências, não qualifica os portugueses para o activo, apenas adia problemas.