quinta-feira, junho 30, 2005

Evidentemente - Histórias da Educação


Evidentemente - Histórias da Educação
António Nóvoa

“As coisas da educação discutem-se, quase sempre, a partir das mesmas dicotomias, das mesmas oposições, dos mesmos argumentos. Anos e anos a fio. Banalidades. Palavras gastas. Irritantemente óbvias, mas sempre repetidas como se fossem novidade. Uns anunciam o paraíso, outros o caos – a educação das novas gerações é sempre pior do que a nossa. Será?! Muitas convicções e opiniões. Pouco estudo e quase nenhuma investigação. A certeza de conhecer e de possuir “a solução” é o caminho mais curto para a ignorância. E não se pode acabar com isto? (…) Este livro nasce de uma necessidade de silêncio. Vivemos governados por um excesso de estímulos, amplificados por uma sociedade que encontra na permanente exposição a melhor forma de se esconder, isto é, de não se pensar. Estranho modo de vida, este, que nos leva de ruído em ruído, preferindo o “aborrecimento de viver” à “alegria de pensar” (Gaston Bachelard). Precisa-se, neste “tempo detergente”, de um pacto de silêncio, de uma pausa que permita ver para além da poeira dos dias que correm. Pensar exige tranquilidade, persistência, seriedade, exigência, método, ciência.” (Da Introdução) É uma obra de referência obrigatória para todos os estudiosos da educação portuguesa dos últimos 150 anos, mas que facilmente pode interessar públicos mais vastos que os educadores e professores. São 50 textos e 50 imagens que revisitam a nossa história numa linguagem simples, interessante, directa e cativante. Muitos dos leitores vão rever-se nas imagens que evocam a sua infância. Os livros por onde estudaram. Os lugares por onde andaram.Nesta obra extraordinária, de arranjo gráfico excepcional, ficamos a conhecer melhor quem somos, as raízes do nosso atraso, os círculos viciosos onde nos temos vindo a perder. Evidentemente.

terça-feira, junho 28, 2005

Ministra da Cultura defende integração de professores disponíveis nos museus

Ainda que muitos professores achem que arrancá-los das escolas e colocá-los a trabalhar nos serviços educativos dos museus seja um ultraje e um atentado à sua dignidade profissional, penso que é uma forma excelente de ensinar e que poderá ser muito ilustrativa, rica e gratificante e que se enquadra perfeitamente nas funções de um professor. Pelas conversas que já tive, alguns professores parecem estar receptivos a esta possibilidade.

De acordo com a notícia avançada pelo Público de hoje [note-se que a versão online é diferente da versão da edição impressa], acho que esta medida peca pela perspectiva redutora, apenas direccionada para os museus de arte. Há muitos mais museus em Portugal que poderão servir outros domínios como a ciência ou a antropologia. Em declaração à edição impressa do Público, Madalena Vitorino, responsável pelo Centro de Animação e Pedagogia do CCB, refere que «o Centro de Animação e Pedagogia tem um papel formativo muito importante, que tem a ver com a valorização de hábitos culturais da população e com o desenvolvimento de uma sensibilidade e uma inteligência divergente». Coloco a tónica, principalmente, no «desenvolvimento de uma sensibilidade e uma inteligência divergente», o que me parece muito importante, mas não no sentido bacoco, balofo, arrogante e maldoso a que ultimamente temos vindo a assistir, que tem apenas fomentado inveja, maledicência, hipocrisia e má convivência, mas sim no sentido de opiniões diferentes mas construtivas. Susana Gomes da Silva, por outro lado, na mesma edição, salienta a transversalidade deste tipo de serviço educativo, o que também me parece muito importante.

Porém, deixo aqui uma ressalva à Sr.ª Ministra pela afirmação «combater a excessiva retórica do ensino». Deixa-me apreensivo, se bem que há quem diga que falamos «pedagoguês», o que quer que seja que isso signifique, tenho uma certa dificuldade em compreender como se ensina sem falar. A interacção não se faz apenas pela fala, faz-se também pela mímica, pelo gesto, pelas imagens, os materiais que se apresentam, o que auxilia, comprovadamente, a capacidade de apreensão das ideias. Bem! Mas como se faz isso sem falar???

Ora, independentemente daquilo de que me poderão acusar, aqui vai uma boa medida educativa que poderá dar bons frutos e experiências muito enriquecedoras.

sábado, junho 25, 2005

20 de Julho 2006 - Dia do Salto Mundial

Curioso, no mínimo. Chegou-me este mail com um pedido insólito de divulgação:


20 de Julho 2006 - Dia do Salto Mundial


No próximo dia 20 de Julho 2006 pretende-se juntar 600 milhões de pessoas em todo o mundo para saltarem em simultâneo a uma determinada hora (ver site). O que se pretende com este mega-salto é conseguir que a Terra altere a sua órbita, afastando-se ligeiramente do sol. Este fenómeno terá como consequência a resolução (pelo menos parcial) do aquecimento global [efeito (supostamente) comprovado cientificamente - ver site]. Toda a informação aqui: http://www.worldjumpday.org/ Ajuda a divulgar este salto para o nosso futuro comum!

[Não sei o que pense disto...]

segunda-feira, junho 20, 2005

Encerrado para balanço

Coagido(s) ou não, estou encerrado para balanço.
Tenho de repensar este ofício!

A um Sr. que por aqui vai dando a sua palavra...

A sua palavra: «Continuas a não saber escrever "creches", ò professor inculto..»

Ao Sr. do http://www.alexandre-monteiro.blogspot.com/ , que me sugeriu uma correcção de CRESCES para CRECHES, - com razão -, razão pela qual prontamente o corrigi, vou deixar aqui um pequeno poema de Ezra Pound para ir meditando:

Meditatio


When I carefully consider the curious habits of dogs
I am compelled to conclude
That man is the superior animal.


When I consider the curious habits of man
I confess, my friend, I am puzzled.


[Ezra Pound]


e um "thanks, but no thanks".

sábado, junho 18, 2005

Revisão das notícias

Revi as notícias de ontem. A baixa adesão à greve não foi novidade, o grosso está marcado para 20, 21, 22 e 23.

Revi, também, a entrevista ao Sr. Albino Almeida, presidente do Conselho Executivo da CONFAP (que me parece ter nascido num dia de caça às bruxas, muito inquisitório tal senhor).

Isto de chamar cínicos aos professores tem muito que se lhe diga. Mais, dizer que «a greve dos professores é um desrespeito pelos nossos filhos, pela nossa vida familiar»; …

…enfim, eu acho que o Sr. Albino Almeida deve andar a tomar ESCOLAS por CRECHES, uma confusão que também já não é novidade ultimamente. Há quem troque o seu cinismo pelo suposto cinismo dos outros.

sexta-feira, junho 17, 2005

GREVE SIM pela nossa dignidade que inclui o respeito pelos nossos alunos

As aulas terminaram para o secundário e para o nono ano. Ainda tenho o sétimo e o oitavo. Um ano lectivo por terminar...
Ontem estive a consolar uma aluna do meu 9º. Chorava que nem uma Maria Madalena arrependida. Convoquei a mãe várias vezes [Nota: a senhora insistia sempre em me tratar por Sr. Prior em vez do habitual Sr. Professor ou Stôr – nunca percebi bem a atitude]. A mãe só comparecia se a convocasse, a livre iniciativa não parecia fazer parte do seu modo de estar na vida. Era simpática, afável, até parecia ser uma pessoa zelosa – coisa que mesmo agora ainda não contesto.
Pois a C. não transitou, ou antes, não foi aprovada, nem sequer vai aos exames. «Pois eu bem te avisei, C.». «Pois avisou Stôr…». Dediquei muito tempo a esta menina (fora da escolaridade obrigatória), tentei o que se podia ir tentando. Ninguém dobrou, porque ela própria também pouco dobrou ou tentou – eu bem insisti…

Estranho, pois, que haja um presidente da CONFAP (não sei se da assembleia se da direcção, apenas lhe fixei a fisionomia e o sotaque do norte) que venha dizer, grosso modo, que não queremos saber dos «miúdos» (expressão minha), os nossos alunos, e que venha falar dos «nossos filhos», como se os professores não tivessem filhos.

Sofismar o insofismável não é muito correcto. Lidamos ano após ano com os alunos. Muitos fazem da escola casa. Podem não se sentir muito bem nas aulas, mas, mesmo depois das aulas terminadas, estão dia após dia na escola: conversam com os professores, brincam e jogam com os colegas… Porque será?

Repito o que, de uma forma ou outra, aqui tenho vindo a afirmar: nós, professores, não somos pais de filhos alheios, somos profissionais que merecem ser tratados com a dignidade que lhes cabe. Também já aqui afirmei que cabe à família tirar mais tempo para os filhos e cativá-los «pela sua inteligência e afectividade, não pela sua autoridade, dinheiro ou poder» (Cury 2004: 48), como estranhamente tem vindo a tornar-se regra geral.

Pois, COLEGAS, façamos GREVE SIM pela nossa dignidade que inclui o respeito pelos nossos alunos e por todos aqueles que nos queiram respeitar também.

quarta-feira, junho 08, 2005

GREVES anunciadas

Greves nos dias 20 (área da DREC), 21 (área da DREL), 22 (área da DREN) e 23 (área das DREA, DREAlg e R.A. da Madeira e R. A. dos Açores). [informação Fenprof]

Se por motivos maiores algum professor quiser fazer greve que não a indicada para a sua área, está livre para o fazer!

terça-feira, junho 07, 2005

Pela dignidade

Há muito onde cortar e economizar! Haja equidade, justiça, ousadia e coragem. Onde fazê-lo - todos o sabem, mas os poucos esquecem-no...

É hora de afirmarmos a nossa dignidade social e profissional:

sexta-feira, junho 03, 2005

Definições à volta do défice

O défice já granjeou estatuto de anedota. Aqui se vê que os portugueses até são um povo bem-disposto, um povo capaz de se auto-ironizar. O que só demonstra que temos muita facilidade de reflectir sobre as coisas, um não sei de arte e engenho. Mas reflectir não é agir. Mestres de uma certa auto-suficiência e do «desenrasca», fazemos milagres nas nossas economias caseiras. À micro-escala revelamos dotes inigualáveis, mas à escala nacional... Generalizações são relativas, mas estou em querer, como alguém me afirmava numa daquelas salas bafientas da Universidade de Coimbra, que se não tivesse sido a coragem daquele punhado de capitães ainda hoje seríamos uma ditadura (na altura discordei). Pois, coisas à parte, a coisa neste momento não está muito diferente, e não vou na demagogia de dizer que encontrámos os novos capitães, mesmo esses só despoletaram o golpe…

Pois bastemos a quem baste o bastante de bastar, pois se não bastasse ainda hoje bastaríamos o bastante de bastar, não continuemos hoje a bastar bastante… Enfim, um exemplo de conversa fiada.

Vamos então à anedota por gentileza de quem ma enviou por e-mail (aconselho aos mais politicamente susceptíveis a não a lerem):



Definições à Volta do Défice

Nos tempos que correm é possível distinguir as cores políticas de meio mundo através da análise das suas posições sobre o problema do défice. É assim:

Socialistas Crentes: Pensam que a culpa do défice é de Barroso e Santana e acreditam que Sócrates só aumentou os impostos porque não esperava um défice tão grande.

Socialistas com QI>50: Dizem que a culpa é de Barroso e Santana e sabem que Sócrates só arranjou um défice tão grande para poder aumentar os impostos.

Santanistas: Dizem que Santana não teve tempo para ter culpa do défice e fingem que perceberam as contas de Constâncio. Têm os quatro a mesma opinião.

Barrosistas: Dizem que a culpa é de Guterres e acham que se não fosse a Manuela, o défice seria de 16,92%. Têm pena de não terem feito uma encenação tão gira há 3 anos.

Guterristas: Dizem que a culpa foi de Cavaco e fazem de conta que já sabiam quanto era o défice, embora não saibam muito bem para que é que serve. Acreditam que Constâncio é um génio da matemática.

Comunistas Clássicos: Dizem que a culpa é das políticas de direita e pensam que os ricos podem pagar a crise. Ainda não perceberam o que é que o défice tem a ver com impostos. Acham que Constâncio é um perigoso neo-liberal.

CêDêEsses: Dizem que a culpa é das políticas de esquerda e pensam que os ricos devem ser subsidiados por causa da crise. Constâncio merece-lhes todo o respeito, até porque tem um grande BMW e mora na linha.

Bloquistas: Acham que a culpa é da direita e acreditam que a solução para o défice está no aumento da despesa pública. Pensam que Fernando Rosas percebe dessas coisas da economia e até seria um excelente Governador do Banco de Portugal.

Nacionalistas: Acham que a culpa do défice é da Europa e acreditam que isto só vai lá com um Salazar.

Benfiquistas: Só hoje é que ouviram falar no défice e ignoram tudo o que aconteceu na semana passada. Esse Constâncio, é o gajo que vem substituir o Trapatoni?

Nuno Cardoso: A culpa do défice é evidentemente de Rui Rio.