sábado, maio 28, 2005

Negação do estatuto de vítima sem aviltar

Se há coisas que nos reduzem a auto-estima, uma delas será certamente a forma pouco inteligente como se ataca as coisas do estado – ou, antes, o estado das coisas do estado – e a percepção que se tem do país.

É aviltante ouvir alguém com responsabilidade política dizer que o peso que algo tem sobre o défice do estado é de 0,00-infinitesimal. É estranho que se tome coisas do género como cargos de chefia por influência e mordomias políticas ou carro e motorista às expensas do estado (do contribuinte) como como coisa perfeitamente natural. O que não se compreende pois que qualquer cidadão tem de pagar o seu transporte para o local de trabalho. A excepção poder-se-ia colocar se estes tivessem funções de representação de estado, mas duvido muito que se possa considerar tal coisa de um gestor ou administrador hospitalar que além disso mantém o seu velho emprego, para não falar do ordenado chorudo que lhe pagam no hospital. Este será apenas um entre muitos exemplos que me põem a pensar no peso do 0,00-infinitesimal sobre o défice do estado – é um lamentável INSULTO a qualquer Português – uma afirmação de quem não tem dois dedos de testa para pensar.

Pois, estimados colegas, que se acabe com as progressões automáticas na carreira, mas que se implementem instrumentos de avaliação justos, equitativos, eficazes e que não permitam que alguns os possam contornar, em particular os políticos. Esses não deveriam ser apenas sujeitos ao sufrágio universal, mas deveriam ser civil, judicialmente e criminalmente responsabilizados pelas políticas e clientelas criminosas que geram e pelas consequências das suas políticas irresponsáveis.

Chega de Cadilhe culpa Cavaco, Sócrates culpa Santana e Durão Barroso, Durão Barroso culpa Guterres… porque em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. E lá vai o tempo em que quem tinha capa sempre escapava. É tempo, sim, mas de solar as botas e de se porem a trabalhar, porque os Portugueses já andam fartos de manter pançudos à argola. Todos estes idiomatismos e expressões proverbiais só demonstram que pela fixação na língua este tipo de atitudes estão há muito enraizadas na sociedade portuguesa, mas é tempo de exorcizá-las, expurgá-las definitivamente.

Quando no futebol se fala em sistema, este não é mais que o exemplo dos actos passivamente e activamente corruptos que há longa data minam a sociedade portuguesa. A atitude de vítima e vitimização são disso reflexo, bem como o excesso de facilitismo que está bem patente na atitude de muitos face a critérios de rigor e exigência que se impõem. Enfim, o país do «nacional porreirismo». O nosso ensino não é mais que isso, mas torna-se mais que isso porque estamos a instruir jovens que se demitem e demitirão das suas responsabilidades, não tendo nada nem ninguém por seu dever, apenas o arrogado direito de poder tudo.

Este cartoon, tão ingenuamente simples, só por si é mais revelador que quaisquer palavras que lhe possa contrapor.


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Fico na dúvida: não será Bill Watterson português? Cá pra mim, ainda terá uma costela...

domingo, maio 22, 2005

Família e/ou Escola

«Não quer o Estado o monopólio da educação e da instrução, porque estas, de direito pertencem às famílias, mas é justo que no exercício da sua função coordenadora e supletória, oriente o ensino no sentido de formar a inteligência e o carácter dos novos segundo a sua doutrina. Nem de outro modo se poderá aspirar à formação de uma mentalidade nova que satisfaça plenamente a renovação material e espiritual da Nação que com tantos sacrifícios se vem promovendo».
Diário da Manhã, 25 de Setembro de 1933


Retirando, a este texto, o contexto histórico e político, alterando-se e actualizando-se uma ou outra parte e substituindo-se algum vocabulário menos adequado aos tempos que correm, diria que seria um texto extremamente actual.

sábado, maio 14, 2005

A primeira anedota em inglês sobre portugueses

A primeira anedota em inglês sobre portugueses de que tenho memória. Bem! Terá sido escrita por ingleses, americanos ou ... enfim, cá vai:

Three men, an Italian, a French and a Portuguese went for a job interview in England.


Before the interview, they were told that they must compose a sentence in English, with three main words: “GREEN”, “PINK”, and “YELLOW”.


The Italian was the first: “I wake up in the morning. I see the YELLOW sun. I see the GREEN grass, and I think to myself, I hope it will be a PINK day.”


The French was the next: “I wake up in the morning, I eat a YELLOW banana, a GREEN pepper and in the evening I watch the PINK panther on TV.”


Last one was the Portuguese:


“I wake up in the morning, I hear the phone GREEN... GREEN... GREEN..., I PINK up the phone and I say YELLOW!”

Nem tudo na educação tem que ser sério!

sexta-feira, maio 06, 2005

Sobre a Guerra II

30 de Abril ao cair da noite, Joseph Paul Goebbels assume a chefia do Reich. Pela manhã, o Führer, Adolf Hitler, suicidou-se no Bunker da Chancelaria em Berlim. Os gnósticos dão graças a Deus por ele se ter suicidado, alguém que talvez nunca deveria ter nascido, mas a História tem o seu tempo e o seu curso. Amanhã, 7 de Abril, Jodl assina a rendição incondicional da Alemanha, mas entre a rendição e o fim efectivo da Guerra ainda vão morrendo milhares.

Estamos no ano de 2005, 60 anos decorridos sobre o fim de uma das guerras, aquela que certamente, até hoje, mais pessoas vitimou. No silêncio dos nossos lares, outras guerras vão entrando e serenamente vamos admitindo-as, como serenamente assistimos àquela Guerra que activamente não nos tocou.

Recordo um senhor que deitado sobre uma cama de hospital me contava como tinha vindo da Prússia Oriental, lá prós lados da antiga Königsberg (terra do filósofo Kant), forçadamente migrando, a pé, até ao extremo ocidental do ocupado Reich, zona de ocupação britânica. Do outro lado, perdeu tudo aquilo que a um ser humano pode dar um certo sentido de pertença: lar, um filho pequeno que lhe morreu nos braços (as lágrimas rolam-lhe suavemente face abaixo, percorrendo velhos sulcos) e a esposa que uma infecção deixou estéril. A tudo resistiu, só não estava a resistir ao tumor que tinha na bexiga. De campos de concentração sabia, do tratamento que deram aos judeus, diz de nada ter sabido, apenas após o final da guerra [parece-me verosímil, atendendo a que as práticas mais bestiais eram mantidas em (semis)segredo]. Talvez a sua casa ainda esteja naquele lugarejo da Prússia Oriental. Compreende-se a preocupação da Polónia aquando da reunificação alemã – afinal, foram aldeias, vilas e cidades inteiras desterradas. Se bestial foi uma coisa, não menos bestial foi a outra.

De Osnabrück era Erich Maria Remarque, cidade próxima de onde vivia o enfermo de quem contei (deixe-se aqui a nota de que só recentemente começaram os alemães a falar do seu passado – aqueles que ainda estão vivos para o fazer – a tese da culpa colectiva deixou as suas marcas). Remarque escreveu sobre a guerra e outros (e)migrantes em Die Nacht von Lissabon (A Noite de Lisboa), que de Lisboa pouco tem. São alemães judeus, em particular, em fuga, com a esperança de apanhar um navio a caminho da América. Na elevação da liberdade, Lisboa surge como algo encantado e onírico:

(…) der Himmel war höher und der geruch nach Salz und Blüten stärker geworden als früher. Es würde ein klarer Tag werden. Lissabon hat am Tag etwas naiv Theatralisches, das bezaubert und gefangennimmmt, aber nachts ist es das Märchen einer Stadt, die in Terrassen mit allen Lichtern zum Meere herabsteigt wie eine festlich geschmückte Frau, die sich niederbeugt zu ihrem dunklen Geliebten.
[(…) o céu estava mais alto e o odor a sal e a flores tornou-se mais intenso que antes. Iria ser um dia limpo. Lisboa tem algo de ingenuamente teatral que maravilha e aprisiona, mas de noite é um sonho de cidade, que em socalcos com todas as luzes desce até ao mar, como uma mulher festivamente adornada que se debruça sobre o seu amor negro.]


Mas Lisboa não passou de um ponto de passagem para a esmagadora maioria, mesmo para aqueles que tinham um ténue ponto de contacto com Portugal, via Brasil, como os Mann, Thomas e Heinrich:

Für mich war das Leben das Schiff, das unten im Tejo lag, und es fuhr nicht in die Unendlichkeit – es fuhr nach Amerika.
(Para mim a vida era o barco que estava atracado lá em baixo e que não ia para a eternidade – ia para a Amerika)

Somos sequência e consequência da história. O passado é-nos presente, porque hoje somos por alguém o ter sido no passado. A bestialidade não é uma característica intrínseca, mas tende a tornar-se endémica. Façamos por recordar para o evitar, porque há quem não o compreenda...