quarta-feira, abril 27, 2005

Da utilidade dos professores

É exemplar a forma como se poderá ter em consideração os docentes, nomeadamente pela actual Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.


Considerar que os professores são corporativos... Bem, para isso falta-nos a união e orientação efectiva. Não falo de sindicatos, pois esses deveriam tratar apenas de questões laborais... Mas, saber-se de uma notícia, veiculada pela Lusa, acerca do alargamento do horário escolar do primeiro ciclo em que se diz que «a medida será aplicada em articulação com as câmaras municipais e associações de pais», deixa-me com uma sensação de desconcerto inexplicável.
Fica-me apenas Camões naquela «Esparsa ao Desconcerto do Mundo»:


Os bons vi sempre passar
No Mundo grandes tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.


Com ou sem professores, Portugal na altura já era um desconcerto!

segunda-feira, abril 25, 2005

A 25 de 25 de Abril



«Agora é que tudo vai mudar!» [A frase que guardo na memória, dita pelo meu pai em 25 de Abril de 1974]

sábado, abril 23, 2005

O ensino das línguas estrangeiras em Portugal

Com o intuito de facultar elementos para o debate do ensino das línguas estrangeiras em Portugal, na sequência do que tenho vindo aqui a apresentar, gostaria que tomassem conhecimento do texto conjunto da Associação Portuguesa de Estudos Germanísticos (da Universidade do Porto) e da Associação Portuguesa de Professores de Alemão.


Este texto, publicado no Público, em 14 de Abril , vem colocar em evidência a ditadura do ensino da língua inglesa nas escolas portuguesas e invocar a ausência do acto democrático da escolha livre. Neste contexto, relembre-se as palavras de Jorge Sampaio na visita oficial a França, pedindo maior apoio para o ensino da língua portuguesa nesse país, tendo-lhe, amavelmente, sido o mesmo pedido remetido à procedência ao exigir-se que se faça o mesmo pela língua francesa em Portugal. Também neste âmbito, a Universidade de Coimbra, através do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos, tem vindo a desenvolver esforços através de colóquios, palestras e contactos com as escolas do terceiro ciclo e secundário da região centro no sentido de sensibilizar professores e alunos para a necessidade da aprendizagem de outras línguas, nomeadamente, o alemão.


É neste espírito de uma europa multicultural, e não com a intenção simplista da monoculturalidade, que pretendo aqui apresentar este texto:

Image hosted by Photobucket.com Transcrição legível:

A situação do ensino do Alemão em Portugal

A situação do ensino das línguas estrangeiras (LE) em Portugal é, no momento actual extremamente preocupante, para não dizer catastrófica.
Uma das questões que têm causado especial preocupação junto da maioria dos profissionais da educação reporta-se à revisão curricular que, a nosso ver, vai contra os princípios estabelecidos pelo Conselho da Europa, que visam o desenvolvimento de uma competência plurilingue.
Numa Europa agora a 25, com novos Estados-membros que contam com elevados índices de escolaridade, nomeadamente no âmbito das LE, e especialmente do Alemão, Portugal não deve perder uma oportunidade de poder competir no mercado de trabalho europeu (e não só), desperdiçando faculdades que inegavelmente os falantes de português têm para a aprendizagem de outras línguas. Como cidadãos europeus, conscientes de uma Europa cada vez mais multilingue e multicultural, parece-nos que todo e qualquer cidadão deveria ser capaz de comunicar em pelo menos duas LE para além da sua língua materna.
Temos consciência de que durante a escolaridade obrigatória os alunos têm oportunidade de aprender duas LE, o que vai ao encontro das directrizes dos órgãos europeus competentes. Todavia, no ensino secundário, no contexto da revisão curricular agora em curso, esta orientação é descurada -apenas um curso (Línguas e Literaturas) contempla a obrigatoriedade de aprendizagem de duas LE.
Para transformar Portugal num país mais competitivo, há uma necessidade premente de investir mais e de forma mais eficiente no ensino das LE, o que implica algumas premissas: a possibilidade de os alunos do 7º ano optarem verdadeiramente entre as várias LE possíveis – Alemão, Espanhol e Francês; a abertura de turmas de LE com um número de alunos inferior a 15 elementos; a reestruturação da reforma curricular para o ensino secundário que actualmente impede a escolha de uma 3ª LE; a continuidade de duas LE obrigatórias no ensino secundário perante a iminência de escolaridade obrigatória; o prosseguimento da aprendizagem de LE na componente de Formação Geral até ao 12° ano; a criação de programas adequados (para o Alemão em parceria com o Goethe Institut e as universidades) para as LE enquanto 1ª, 2ª e 3ª línguas para todos os níveis em conformidade com o Quadro Europeu Comum de Referência, o qual terá de estar em vigor nas escolas até 2007 (prerrogativa do Conselho da Europa); a inclusão de LE como disciplina obrigatória na componente de Formação Específica nos cursos de Ciências Sócio-Económicas e Ciências Sociais e Humanas; a inclusão de LE na componente de Formação Tecnológica nos cursos Tecnológicos de Administração e Marketing; a criação de cursos tecnológicos de Turismo e Documentação com duas LE; o estabelecimento de protocolos com universidades alemãs e empresas de países de expressão alemã, em Portugal; a salvaguarda da defesa do plurilinguismo face ao avanço do Inglês; numa altura em que o Governo se prepara para instituir a obrigatoriedade do Ing1ês no 1° ciclo do ensino básico, parece-nos premente alertar para a existência de outras línguas tão ou mais faladas que o Inglês na Europa.
Na sequência do exposto, e no âmbito do 1° Encontro Nacional Associação Portuguesa de Estudos Germanísticos - Associação Portuguesa de Professores de Alemão, subordinado ao tema Deutsch lernen – Deutsch studieren: Berusfspersperspektiven im Europa der 25, no qual teve lugar um debate empenhado e interventivo sobre o ensino da língua alemã no contexto nacional actual, as direcções das referidas associações já redigiram um apelo às entidades superiores, com vista a reformular os aspectos anteriormente mencionados.

A DIRECÇÃO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESTUDOS GERMANÍSTICOS
A DIRECÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DE ALEMÃO
LISBOA [deve ler-se Porto]

segunda-feira, abril 11, 2005

A ausência será aproveitada: Despacho n.º 57/SEED/94

Segundo divulgação da Netprof, não há novidade na implementação da medida de ocupação dos tempos lectivos por ausência de professor, estando previsto no Despacho n.º 57/SEED/94, de 17 de Setembro [link].
Na súmula do referido Despacho lê-se: «Prevê a organização de actividades educativas para aproveitamento dos tempos de inactividade dos alunos devido à ausência imprevista de professores».

quarta-feira, abril 06, 2005

Primeiro pensar, depois falar


Não tivesse eu falado, mas falei e alguém o disse. Maria de Lurdes Rodrigues mantém a velha confusão e tradição (a maldição que persegue qualquer ministro da educação) de insistir em chamar aos órgãos de gestão, do Básico e Secundário, Conselhos Directivos. Já o foram, mas, actualmente, conselhos directivos têm as faculdades e os politécnicos, o Básico e o Secundário têm Conselhos Executivos. Pois, lá vai a primeira gafe da ministra na entrevista à TSF de ontem.

Quanto a isso, terei que me reconhecer complacente; é isso mesmo, uma coisa menor. O que eu acho, que não é uma coisa menor, é a recuperação daquele método de exposição da notícia à opinião pública através da avidez sensacionalista dos órgãos de comunicação social, prontos a dar qualquer notícia, mesmo obliterando-lhe o contexto natural. A procura do efeito noticioso não está apenas no órgão que veicula a notícia, mas também naquele que dá a matéria para a notícia. O dar a notícia com o fim de sondar o feedback, o alcance, que esta possa ter, é indício de uma táctica política que pode vir a causar um mal-estar extremo e uma desorientação nos agentes educativos, pela consequente instabilidade que gera. E a instabilidade gera inevitavelmente a paralisia.

Mas, não obstante os erros cometidos no passado, parece um método recuperado e revigorado na prodigalidade do diz e desdiz, do faz e desfaz, do põe e dispões e do remenda furos. Parece-me absurdo andar a anunciar medidas avulsas em vez de se estudar as coisas a fundo, promover debates, sondar opiniões e tirar as devidas ilações, partindo-se para reformas plausíveis, verosímeis, necessárias e duradouras. Anteontem era para acabar com os furos; ontem, para acabar com os exames do nono ano (vide notícia no DN); hoje, não sei e, amanhã, o que será?

Acabar com os furos nos horários dos alunos é bom. Mas será que já alguém pensou que os nossos alunos eventualmente andarão a passar tempo a mais na escola? Não estaremos a pecar por excesso? Qualquer criança ou adolescente precisa de tempo para si, para os seus amigos, para ser o que é: uma criança ou adolescente, sem ter que estar encarcerado na escola, – esta coisa que se anda a transformar num campo de concentração diurno, entediante, massacrante e macerante. Eles estão a atrofiar! Cabe à família, essa sim é que necessita de tirar mais tempo para os filhos e cativá-los «pela sua inteligência e afectividade, não pela sua autoridade, dinheiro ou poder», como diz Augusto Cury (2004: 48). Essa é que deveria incutir determinados valores emocionais e morais aos seus rebentos, criando personalidades íntegras, não receando que a cada hiato temporal, que escapa à sua vigilância, eles possam ir por maus caminhos [Cf. Augusto Cury(2004), Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, Cascais, Pergaminho].

E não terão os professores, também, o direito a um horário de trabalho decente? Um horário de trabalho que lhes proporcione tempo para preparar o seu trabalho? E não uma ausência de horário ou flexibilidade total para remendar furos. Os professores também têm famílias, basta-lhes o tempo que gastam em quilómetros de viagens e em esperas infindáveis pela próxima aula, só porque alguém não soube fazer um horário. Para não falar na ausência de condições das escolas para o trabalho docente fora da sala de aula, extra-lectivo.

Pois, que se pense, sem especulações demagógicas!

segunda-feira, abril 04, 2005

Primeiro-ministro quer acabar com furos nos horários dos alunos!?

Que certas turmas têm horários que parecem queijos suíços, todos nós sabemos, mas que o primeiro-ministro queira acabar com furos nos horários dos alunos...
Bem! Quais furos?
Os dos horários mal feitos dos alunos, ou dos horários mal-remediados de só alguns professores, ou mesmo daqueles furos de professores faltosos (por necessidade ou jeito, ou então outra coisa que se queira)?

É que segundo a notícia avançada pela Lusa e pelo Público:

«A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, garantiu que a generalização das aulas de substituição em todas as escolas do país "não implicará um aumento do número de professores ou de meios" por parte do Estado."»

Estranho! Irá haver horas extraordinárias para muitos professores ou então teremos a tão almejada reforma do ensino público com o professor-animador-de-tempos-livres.

«O Governo gostaria que, no início do próximo ano lectivo, todas as escolas do país inscrevessem nos respectivos planos de actividades essa prática", acrescentou.»

Já tirei a batatinha da naftalina - o Carnaval vai ser mais cedo! Com os tempos que correm, isto mais parece uma cena de gente feliz com lágrimas (que o João de Melo me desculpe o apropriamento), este admirável mundo novo (sem ofensa para a notável obra de Aldous Huxley).

sábado, abril 02, 2005

Meditatio

Meditatio

When I carefully consider the curious habits of dogs
I am compelled to conclude
That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man
I confess, my friend, I am puzzled.


[Ezra Pound]


Deixem morrer quem tem que morrer!...