quarta-feira, março 30, 2005

INGLÊS - em Dezembro como agora

Em Dezembro, aquando do anúncio da implementação do ensino da Língua Inglesa no Primeiro Ciclo, deixei aqui a minha opinião acerca desse assunto [link para o post].
Repito, não achei conveniente introduzir o ensino dessa língua por razões que volto a enumerar:

· Primeiro, o ensino da Língua Portuguesa não está suficientemente consolidado no Primeiro Ciclo. Os alunos apresentam, na globalidade, dificuldades consideráveis de compreensão escrita e oral, de aplicação do sistema linguístico e de produção escrita.
· Segundo, o sistema apresenta falhas ao nível estrutural: falta de condições físicas para um trabalho eficaz; dispersão geográfica das escolas e as implicações de deslocamento de alunos e professores para o efeito.
· Terceiro, o professor, de acordo com a lei, é considerado coadjuvante, implicando a ponderação de monodocência ou polidocência para o Primeiro Ciclo. Na prática, já se verifica o último, o que significa que a lei é uma coisa e o que se verifica na realidade é outra.
· Quarto, continuamos a ter professores no Primeiro Ciclo cuja formação inicial não está vocacionada para a docência polidisciplinar. São professores de Música, Educação Física, Educação Visual ou outras (longe vão os tempos que bastava saber ler e escrever para ser professor).

Não vivo alheado da realidade para não saber que o Inglês é uma das línguas mais faladas no planeta e por eleição (e imposição) a língua da ciência. Que quanto mais cedo é adquirida uma língua estrangeira, maior é a eficácia na apropriação e interiorização das estruturas linguísticas. Bem como, melhor é a adaptação do aparelho fonador da criança à produção fónica dos sons próprios dessa língua, em função da maleabilidade do aparelho fonador nessas idades tenras. E que vivemos num mundo globalizado, que tem muitas vantagens (e não menos desvantagens), pelo que o domínio dessa língua favorece o contacto com outras culturas e povos.

Contudo, isto não implica a minha concordância com o que se pretende fazer, muito menos, ainda, com o desnivelamento com que se pretende aplicá-lo. Deixa-se aqui mais um sinal de que efectivamente vivemos num país de, premeditadamente, favorecidos e desfavorecidos. Não se atente contra o Princípio da Igualdade consagrado no artigo 13º da Constituição da República Portuguesa, leia-se:

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

A medida anunciada não são só vantagens. Há um desnivelamento regional: pretende-se implementar, já no próximo ano lectivo, o ensino da língua em escolas próximas de sedes de agrupamento ou escolas que proporcionem a proximidade de professores qualificados. Isto implica que as escolas desfavorecidas (em geral, sempre do interior) terão ou não, provavelmente ficarão para as calendas gregas.
Quanto às três horas semanais, para uma sensibilização é muito, quando no Terceiro Ciclo o ensino da Língua Inglesa vai perdendo terreno, duas horas semanais, face a outras disciplinas (não menos importantes, mas menos relevantes), e capacidade de activação, porque numa língua estrangeira quem não pratica esquece.
Quanto aos programas e regulamentação, será à vontade do freguês?

De acordo com o programa do governo, a ambição para a educação é ciclópica, como ciclópica é necessidade imanente. Mas não confundamos tenacidade na prossecução dos objectivos com medidas apressadas, porque depressa e bem não há ninguém. Precaver não é hesitar. E não esqueçamos que os grandes favorecidos são os grandes e médios meios urbanos. É necessário que haja coerência e equidade nas medidas a tomar.

quinta-feira, março 24, 2005

Interruptamente...

Ora aí estão as interrupções. Nada de férias... desculpem-me lá a falta de profissionalismo, mas eu cá necessito de umas. Férias, pois!
Isto de ser professor não mata, mas amolenta.
Uma boa Páscoa a todos!

quinta-feira, março 17, 2005

Albert Einstein (1879 - 1955)



«Vorstellungskraft ist wichtiger als Wissen».

(A imaginação é mais importante que o saber.)

terça-feira, março 15, 2005

The Lesson

Reflectir sobre a (in)disciplina na sala de aula é um exercício de silêncio, mas, também, de palavras que oferecem no poema «The Lesson», do poeta britânico Roger McGough, uma proposta interessante, de sátira e de auto-crítica:



The Lesson

Chaos ruled OK in the classroom,
As bravely, the teacher walked in.
The hooligans ignored him,
His voice was lost in the din.

“The theme for today is violence
and homework will be set.
I’m going to teach you a lesson,
One that you’ll never forget!”

He picked up a boy who was shouting
And throttled him then and there,
Then garrotted the girl beside him
The one with the grotty hair.

Then, sword in hand he hacked his way
Through the chattering rows
“First come, first served”, he declared.
“Fingers, feet or toes.”

He threw the sword at a latecomer,
It struck with deadly aim.
Then pulling out a shotgun,
He continued with his game.

“Please, may I leave the room, sir?”
A trembling vandal enquired.
“Of course you may”, said the teacher,
Put the gun on his temple and fired.

The Head popped a head round the doorway
To look at the din being made,
Nodded understandingly,
Then tossed in a grenade.

And when the ammo was all gone,
With blood on every chair,
Silence shuffled forward
With its hands up in the hair.

The teacher surveyed the carnage,
The dying and the dead,
He waggled a finger severely:
“Now let that be a lesson!!”, he said.

domingo, março 13, 2005

A insustentável leveza da burocracia

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sexta-feira, março 11, 2005

Dois dedos de conversa

Há muito que não debito por aqui umas palavras. A altura não é propícia. Não é que os professores só trabalhem nesta altura, mas, quer queiramos quer não, o monte de burocracia que nos atiram – nesta altura – para cima é qualquer coisa de absurdo. Só não consigo perceber onde estão os funcionários administrativos (pode ser que alguma coisa mude com o novo elenco no ME).

E isto do novo elenco tem muito que se diga. Há quem afirme que a nova aposta para a Educação seja uma desconhecida (a este respeito, leia-se a notícia do Público de 9 do corrente). Pois, eu contra-argumento que dos conhecidos lhes conhecemos os feitos. Da desconhecida, terá que prestar provas do que é capaz de fazer. Esperar para ver. Julgar antes do tempo é precipitado.

Contudo, mais uma vez se constata que é alguém do Superior... E isto não quer dizer que Maria de Lurdes Rodrigues não tenha conhecimento de causa de como o Básico e Secundário funcionam, mas certamente estará desfasada, pelo menos por enquanto (há coisas que levam um certo tempo a absorver: a matéria prima do Básico e Secundário é substancialmente diferente do Superior), das necessidades e realidades reais das escolas. Não esqueçamos que temos o urbano privilegiado e o desprivilegiado e o rural completamente esquecido. Tem, porém, a seu favor ter desenvolvido um trabalho relacionado com o mundo do trabalho. É nesta área que eu deposito as minhas esperanças pessoais em Maria de Lurdes Rodrigues. Como já aqui referi antes neste blogue, é uma área semi-esquecida e que mexe com a noção vigente de sistema inclusivo e de homogeneização descabida dos nossos alunos. Temos uma natureza heterogénea e não homogénea. Somos diferentes em destrezas, competências e inteligências – não forcemos artificialmente a nossa natureza.

Espero que não sejam cometidas as habituais gafes, que só demonstram ignorância e dão uma má imagem, do género «conselhos directivos» em vez de «executivos», etc. Vou esperar para ver e julgar depois...

Para mais sobre Maria de Lurdes Rodrigues: