sábado, janeiro 29, 2005

Guardar na memória


Não me esqueci dos 60 anos de Auschwitz, Buchenwald, Dachau, Treblinka, talvez os mais sonantemente tristes entre outros nomes que devemos guardar na memória. Mas guarde-se, também, outros atropelos à dignidade humana que vieram depois... Alguns deles perpetrados pelos então visados.


O déspota dominante sempre fez das suas. Tome-se a divisa medieval de nobres da Westfália (na actual Alemanha):
«Cavalgar e roubar não é vergonha nenhuma, pois que o fazem os melhores em todo o país».

Ainda - hoje - podemos rever algumas situações nesta divisa.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Para todos

Há coisas que são de todos e para todos. Algumas reflexões, que ultimamente têm vindo a público, umas de notáveis outras de menos notáveis, deixam-me seriamente preocupado. Não tanto por mim, mas mais por aquilo que eu concebo ser a função de um qualquer estado, independentemente da ideologia política de um qualquer governo em funções.

Qualquer estado tem que ter uma responsabilidade – e, acima de tudo, um dever – social vincado e inelutável e promover a solidariedade entre pessoas e instituições. A organização e gestão e os procedimentos a ter, no período da legislatura, cabe ao governo eleito.

As reformas (ou boatos) anunciadas vão no sentido de cortes em sectores que eu considero serem um risco incomportável para qualquer sociedade, nomeadamente na educação e na saúde. Esclareço: somos uma espécie gregária, social. A nossa evolução e avanços no conhecimento e na cultura foram feitos com base neste paradigma. Dependemos uns dos outros e alicerçamos a nossa existência em ascendentes e descendentes e numa sociedade que nos acarinha, para que possamos nascer, crescer aprendendo e sobreviver. O estado-providência é uma consequência lógica da nossa natureza humana, de modo que a argumentação liberal do tipo «laisser faire, laisser passer, le monde va de lui-même» é uma ideia e uma lógica meramente economicista. Somos unidade na diversidade. A unidade é inclusão na diversidade de uma sociedade solidária.

As reformas no sistema educativo não passam só pelo alargamento da escolaridade obrigatória, nem tão pouco pela redução do pessoal docente, mas pela reformulação de programas e critérios de avaliação e, principalmente, pela reformulação do modelo de escola inclusiva.

Inclusão, para mim, significa responder às necessidades reais dos nossos alunos. Responder às necessidades de uma massa heterogénea, com interesses heterogéneos. A divergência de interesses faz-se notar não só no secundário mas também no terceiro ciclo. Caso não forem tomadas medidas de diferenciação, não do género de diferenciação de actividades e estratégias no contexto sala de aula, mas de sistema educacional, com vias de ensino diferenciadas, desde uma formação profissional efectiva a um regime de estágios integrados, temo que a nossa Educação vá de mal a pior. A ideia retrógrada de que todos têm as mesmas capacidades redunda em abandono escolar. Temos alunos com excelentes qualidades e de inteligências bem demarcadas que estão a ser votados ao abandono e ao analfabetismo funcional, só porque o conceito inclusivo, que domina o nosso sistema de ensino, está apenas orientado para prossecução de estudos – o que está comprovadamente errado.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

SECA

A falta de chuva não tem favorecido muito a agricultura. Os agricultores queixam-se, com razão, da dificuldade de ver suas culturas medrar, como se não bastasse as geadas têm queimado tudo. Até o fogo decidiu pegar na Estrela e queimar de ardido. Mas a seca não anda só por aí.

Não vou fazer previsões meteorológicas, mas isto está tudo uma seca.

Recordo-me vagamente do MEC (Miguel Esteves Cardoso), aqui há uns anos, ter escrito uma crónica acerca de «seca». Já não me lembro lá muito bem do conteúdo. O tempo esfumou-me a memória, mas uma coisa eu sei: a palavra continua tão actual como antes.

Os nossos alunos, sejam eles do superior, secundário ou básico, fazem uso frequente da palavra. Ela é de uso passivo, impulsivo, aleatório, compulsivo, evasivo... e mais uma data de atributos pródigos que podem fazer a delícias do comunicador e, por vezes, a irritação do interlocutor – se ele, de facto, tiver parte na conversa – pois parece que poderá ser um rótulo de mera chega-pra-lá-que-isso-não-me-interessa.

A vulgaridade da palavra é sinónimo de apatia, indiferença, letargia (às aparendizagens, evidentemente) que parece ter origem num excesso de input mediático. A cultura do mediático já não é um mero shift de interesses, é um fenómeno que está a alastrar e a deixar os putos completamente brainwashed. Aquela geração rasca de que se falava aqui há uns tempos é tão actual como nunca. Ora, vejamos alguns exemplos do que não é seca: ter um telemóvel topo de gama para mandar uns SMSs e uns toques, fixe é mandá-los durante as aulas [a este respeito, confira-se o post do Professor]; ou ter uma Playstation de última geração, isso traz-se na mochila pra mostrar à malta, os livros ficam em casa, ou deixam-se em cima de um cacifo qualquer até desaparecerem. Há também a modalidade do jogo de cartas Magic, com legendas em inglês, coisa que para perceber até consultam o dicionário, fenómeno que não se verifica noutras situações. Mas a experiência mais interessante de todas, que mais parece um artifício pavloviano, é tentar passar um excerto de um filme onde se encontrem os opostos: acção extrema, do género pancadaria à bruta, explosões com montes de efeitos especiais, etc., e uma coisa calminha, mesmo que de um diálogo intenso. No último, os alunos quase que adormecem; no primeiro, a malta é toda energia e participação. Braindead.

Os exemplos são muitos, mas conseguem deixar o ofício de professor à beira da falência. É difícil ensinar numa sociedade que vive para o imediato onde a palavra seca tem correlatos semânticos como desinteressante. Esta última parece estar muito em voga entre a classe política, estando a pasta da educação na linha da frente. É razão para perguntar – para quê esforçarmo-nos? Ou então, dar um mergulhozito nas águas tépidas de São Tomé e Príncipe para humedecer a seca e o desinteresse.

Certo é que há coisas que já não estão in, mas há muita malta que vai ficar out se não houver uma mudança drástica e cerebralização de atitudes por parte da malta, mas principalmente de pais, professores e governantes, para não dizer a sociedade em geral.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Esqueceram-se dos professores?

«Toda a gente parece ter esquecido os professores do Ensino Básico e Secundário (...) [Quem foi ela...?]
É preciso dizer bem alto que a maioria dos professores do Ensino Básico e Secundário faz um notável esforço para que as coisas corram bem. Preparam as suas aulas com a preocupação de as tornar interessantes, estão disponíveis para ouvir os alunos e ainda arranjam tempo para falar com os pais. Infelizmente são sobrecarregados com tarefas burocráticas (sobretudo os Directores de Turma), têm poucos apoios concretos para resolver os dilemas do quotidiano escolar e, sobretudo, têm uma informação escassa ou desligada do se passa na sala de aula (...)
(...) tudo se lhes pede: que substituam os pais, que instruam, que sejam psicólogos, que transmitam valores e muitas coisas mais, como se tudo fosse fácil num contexto tão exigente».
Daniel Sampaio, in Xis (Público, 8 Janeiro 2005) [sublinhado meu]

sábado, janeiro 08, 2005

Tristezas não pagam dívidas, alegrias também não...

Sem novidades para o Ano Novo.
Venha ele a ser um novo ano, pelo menos para coisas que nos possam divertir. Afinal, há por aí muita coisa que não podemos, neste momento, levar muito a sério. Para quem se desprende com facilidade de qualquer acrimónia, dispensando o Prozac (que até esse parece ter efeitos indesejados), sugiro uma visitinha a'O Jumento a todos aqueles que não se sentem acicatados e melindrados com algumas referências. É um blogue mordaz, satírico, mas divertido.