quarta-feira, novembro 30, 2005

70 anos depois, ainda Fernando Pessoa





CARTA INORGÂNICA DO ESTADO INDEPENDENTE DO BUGIO


Único. - As leis deste Estado, em contrário das do continente adjacente, serão redigidas em português.

N.º 1 - São adoptadas todas as disposições constantes do contrário de todas as leis adoptadas no citado continente adjacente.

N.º 2 - Designadamente, e para facilitar a imigração de artistas, se exclui de todas as leis e registos de propriedade referentes a casamento a exigência de diferença de sexo entre os nubentes.
N.º 3 - Este Estado institui para os nacionais a categoria única de cidadãos do Bugio, a qual poderá ser obtida por qualquer processo insinuante, sendo permitido o da existência.

N.º 4 - Este Estado institui para os estrangeiros três categorias progressivamente ornamentais - meliante, cevado e javardo - e, como não haverá (em virtude de progressivos decretos e emendas) maneira de distinguir a capacidade respectiva, a promoção será feita, como no continente adjacente, por indistinção.

N.º 5 - Como, segundo o direito moderno, os mortos mandam, serão considerados administradores deste Estado, além de outros de igual categoria que venham a ser oportunamente designados, os cidadãos Quinto Horácio Flacco, Diogo Alves. Dante Alighieri, José do Telhado. John Milton, João Brandão, Conselheiro J. W. von Goethe, William Shakespeare e Manuel Peres Vigário.

N.º 6 - Para evitar qualquer descrédito do banco do Estado, não haverá banco do Estado.

N.º 7 - Este Estado poderá deixar de existir por cansaço.

N.º 8 - (e único) - É desde já nomeada única cidadã honorária deste Estado a Exm.ª ausência do Sr. Júlio Dantas.

Bugio, a alumiar.

Dada em Lisboa, pelo grupo revolucionário exilado do Bugio, nas notas do notário Abel Pereira da Fonseca.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Aula de Formação Cívica

No último "Prós e Contras" ficou-me aquela frase final da Srª Ministra - que talvez defina a sua forma de ser ou estar nestas coisas da educação:

«Contornar os obstáculos e fazer»

Dirá, eventualmente, muito ou, talvez, nada...

quinta-feira, novembro 17, 2005

De NEEs, dificuldades de aprendizagem e currículos alternativos

De regresso às (in)confidências e correndo o risco de poucos lerem este post extensíssimo, venho aqui debitar mais umas ideias soltas...

Na sequência daquilo que a Sr.ª Ministra da Educação ontém trouxe a público, no tocante aos alunos com repetências em anos anteriores e em risco de retenção, vi-me aqui empurrado a despender de algum tempo (do pouco que ainda vou tendo - porque será?) para abordar algumas considerações e ideias. Coloco aqui a questão se o encaminhamento destes alunos deverá ser equacionado, à partida, a partir do próximo mês de Janeiro para as tais vias profissionalizantes, que ao certo não sabemos o que serão, pecando-se aqui pela indefinição, o vago…

A minha primeira consideração irá para aquilo que se considera ser, neste momento, um(a) educação/sistema inclusivo, em particular no nosso 3ºCEB. A inclusão, pelo menos tal como é encarada neste momento, joga mal com as diferenças sociais e cognitivas dos nossos alunos. Temos alunos muito heterogéneos que consequentemente tornam a tendência homogeneizante da educação mais exclusiva que inclusiva. Isto torna o abandono escolar quase que uma tendência inevitável.

A discrepância dos interesses dos alunos face à escola demonstra um certo desfasamento do sistema escolar e, por outro lado, uma certa desordem social e familiar e, consequentemente, cultural, também, (colando-me aqui ao conceito inglês de «disorder»), repercutindo-se estes últimos inevitavelmente nas tão apregoadas dificuldades de aprendizagem (DA). Esta desordem sócio-familiar, que também é sócio-económica, existe em função do meio em que o aluno está enculturado, em oposição à escola que representa um meio social e cultural diferente. Cabendo então definir DA, serão estes interesses divergentes ou diferentes dos inculcados pela escola? Não sei, quem saberá?

Estas questões trago-as aqui apenas porque ando cansado de ver alunos com NEE e Turmas de Currículos Alternativos (CA) que mais parecem em férias do que propriamente a tirar proveito da escola, e deste ponto até ao abandono escolar é um passo. Normalmente, dever-se-ia proporcionar a estes alunos de CA uma componente de formação vocacional, tal como a legislação prevê, o que excepcionalmente se verifica. Estes alunos são fortemente manuais, logo virados para a prática e não para a teoria. Enquanto professor de línguas estrangeiras, deparo-me frequentemente com a dificuldade não tanto no quê mas antes no como, i.e., não nos conteúdos mas antes no processo de os transmitir. Transmitir uma língua estrangeira a alunos com DA não é pêra doce, mesmo sabendo que «todo o burro come a palha, sabendo-lha dar». É uma questão de teoria versus prática, ou como se ensina prática sem teoria? Daí que ache, voltando ao início das minhas considerações, que a senhora ministra em vez de ressuscitar a avaliação sumativa extraordinária e a avaliação especializada, deveria antes definir o que são alunos de risco e com DA; redefinir os Cursos de Educação e Formação com equivalência ao 9º ano, reequacionando o desenho dos currículos para estes cursos, retirando-lhes o excesso de carga teórica; em suma, reformular o conceito vigente de Educação Inclusiva para eliminar o insucesso escolar, porque não existe o aluno-padrão.

Já vai chegando a hora de acabar com os guetos na educação, porque já se chegou à conclusão que os bairros sociais só trazem problemas e nenhumas soluções. As Turmas de Currículos Alternativos não são mais que isso. Como se qualifica uma população para o activo? Preparando-as apenas para o ensino secundário e superior? A utilização diária de chavões, por Suas Excelências, não qualifica os portugueses para o activo, apenas adia problemas.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Petição ao Presidente da República Portuguesa

Chegou à minha caixa de correio o pedido para abaixo assinar esta Petição ao Presidente da República Portuguesa, parcialmente transcrita na infra, redigida pelos professores Maria Emília Rodrigues e José Carlos Callixto.
Encontra-se à disposição dos interessados em: http://www.petitiononline.com/profspor/



Ex.º Sr. Presidente da República Portuguesa

No decorrer do 1º Período deste ano lectivo de 2005/2006, não podemos deixar de transmitir o nosso sentimento de revolta e de repúdio por aqueles que consideramos estarem a ser os maiores atentados contra a dignidade e o profissionalismo dos professores, cometidos perante a quase total passividade e complacência da classe. Ao longo de décadas, aceitámos passivamente reformas sobre reformas, a maioria das quais demagógicas e irresponsáveis. Aceitámos passivamente programas curriculares de qualidade cada vez mais duvidosa, para já não falar da respectiva implementação à sombra e como consequência da pressão de lobbies editoriais. Ao longo de décadas, habituámos os sucessivos Ministérios a tudo, desde comprarmos nós os lápis, canetas, papel, acetatos, e, já agora, porque não, computadores, a oferecermos horas e dias de trabalho muito para além das “famosas” 35 horas semanais, inclusive muitas vezes em período de férias, e não só não sendo recompensados por isso, como também não ganhando o respectivo subsídio de alimentação, como é o caso, pelo menos, da maioria dos Conselhos Executivos, por forma a possibilitarem o lançamento do ano lectivo seguinte no curto espaço de tempo que lhes é imposto. Aceitamos passivamente as barbaridades que todos os dias, e cada vez mais, lemos e ouvimos nos jornais e nas televisões, provindo até de figuras e de quadrantes inesperados, com a despudorada ignorância de uns, com a conivência de outros, porque é preciso arranjar culpados para o estado a que o Ensino chegou. Aceitamos passivamente a indiferença dos Media perante o sentimento de desmotivação e revolta dos professores. A presente Petição surge, aliás, na sequência de um manifesto enviado a três importantes órgãos de Comunicação Social escrita, nos quais se têm sucedido os inqualificáveis e injustos ataques à classe docente, mas que não se dignaram sequer responder aos autores, quanto mais publicar o referido manifesto. Somos, como consequência, a classe em mais franco declínio na opinião pública, mas somo la com a nossa quase total passividade e complacência, com a quase total passividade e complacência dos Sindicatos, nos quais dificilmente nos revemos, e que perante tantos atropelos apenas se dignam titubear alguma indignação, que de tão inócua se torna ridícula. Assistimos à ideia de que hoje a perspectiva de vida é maior, o que é um facto, mas não se fala também que a sociedade mudou radicalmente, exigindo aos professores que se tornassem, além de pedagogos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, verdadeiros bombeiros em época de incêndios, apagando fogos por tudo quanto é lado. Comparam-nos sempre aos outros países da Europa, esquecendo se no entanto de mencionar, pelo menos, as condições de trabalho e as instalações. E quando o salário não é esquecido, fazem se comparações aberrantes, das quais resultaria a conclusão que, nalguns países, o salário dos respectivos professores seria, nalguns casos ... inferior ao respectivo salário mínimo nacional. Os professores europeus estarão efectivamente mais horas na escola, particularmente na componente não lectiva, mas trabalham em conjunto, preparando estratégias, realizando trabalhos multidisciplinares, preparando aulas, fazendo e corrigindo testes. Pouco ou nada é feito em casa, solitariamente. Mais, enquanto nas nossas escolas professores com depressões gravíssimas se arrastam penosamente – é a classe profissional onde a taxa de doenças psiquiátricas é a mais elevada – na Alemanha, por exemplo, à primeira recaída de uma depressão tem-se direito à reforma por inteiro. [continuação]

terça-feira, outubro 18, 2005

Visita da Ministra da Educação à EB 2, 3 Alice Gouveia, em Coimbra



Não tenho tido muito tempo para deixar por aqui as minhas (in)confidências. Mas não posso deixar em claro a visita de Sua Ex.ª, a nossa, enfim, Ministra da Educação, após a tão dignificante atitude, ontem, na EB 2, 3 Alice Gouveia, em Coimbra.
Não pretendo demorar-me em comentários, apenas agradeço, para um melhor esclarecimento, a leitura dos artigos que deixarei em link:


A Ministra da Educação esteve na EB 2/3 Alice Gouveia, em Coimbra, no passado dia 17 de Outubro. Deveu-se a visita à apresentação de um projecto da Universidade de Aveiro, dirigido à Matemática (Tdmat).
Tendo em conta a presença da Ministra, quase todos os professores da escola se vestiram de luto para a receber, como forma de protesto pelas medidas tomadas por este Governo para a Educação e contra os Professores.
[Informação SPRC]


Má nota para DREC e ministra
Estavam todos convidados para a apresentação oficial do TDmat. Quinze minutos depois, a comunicação social foi convidada a abandonar a sala e a escola. As dificuldades que os professores de Matemática sentem dentro de uma sala de aulas foram contadas em privado. [Diário de Coimbra]


EB 2,3 ALICE GOUVEIA – Ministra recebida com contestação
Professores vestidos de luto, uma manifestação sindical e um convite à dispersão dos jornalistas marcaram a visita da ministra da Educação a Coimbra. [Diário As Beiras]









segunda-feira, outubro 03, 2005

Inglês começa hoje a ser ensinado pela primeira vez no ensino básico

Pela primeira vez no ensino público em Portugal, alunos do primeiro ciclo do ensino básico (antiga escola primária) vão ter hoje uma aula de Inglês em 150 municípios portugueses.
...
A implantação do novo projecto foi feita através de propostas apresentadas pelas câmaras municipais ou associações de pais. [Público]


Convém frisar que as propostas apresentadas pelas escolas foram declinadas, recusadas, rejeitadas, enjeitadas, evitadas, ostracisadas, negadas, excluídas, banidas, exiladas, proscritas... como proscritas serão escolas e os seus professores na abstinência do pensar e do ensinar - o professor não pensa, obedece...

terça-feira, setembro 27, 2005

Rex já dá aulas de língua alemã

2005-09-26 - 00:00:00

Docentes querem ensinar mais novos

Rex já dá aulas de língua alemã

Mais de 183 mil alunos do 3.º e 4.º ano vão aprender inglês a partir de Outubro. Muitos percebem palavras de alemão. Motivo? A série ‘Rex, o Cão Polícia’. “Os mais novos sabem muitas palavras soltas e por isso queremos falar com os municípios para criar escolas-piloto no ensino do alemão do 1.º Ciclo”, diz Antónia Laranjo, presidente da Associação Portuguesa de Professores de Alemão (APPA).

A docente da secundária Garcia de Orta (Porto) considera que os alunos “devem poder escolher mais do que uma língua estrangeira, até porque quase todos os países da Europa já têm um outro idioma a partir do 1.º ano”. Em Espanha, aprende--se outra língua a partir dos três anos e na Holanda dos cinco.No Dia Europeu das Línguas (DEL), assinalado hoje, a Comissão Europeia lança uma brochura com 50 formas de motivar alunos e professores a aprender as línguas estrangeiras. “Se não dominarmos mais do que a língua materna, ficamos isolados. Os cidadãos dos novos países membros da UE sabem russo e alemão e estão a aprender Inglês, o que nos coloca numa situação delicada.”

CELEBRAR DIA EUROPEU DA LÍNGUA

Mais de 400 iniciativas em 36 países europeus vão recordar a importância do multilinguismo. Mas na página oficial do Dia Europeu da Língua (DEL) há apenas duas iniciativas assinaladas para Portugal: um ‘dia aberto’ no British Council de Coimbra, com demonstração de aulas e divulgação de informações sobre a aprendizagem e exames de língua inglesa, e acções de pesquisa na Internet em sites linguísticos, na Escola Secundária de Lagoa (Açores).

De acordo com o Gabinete de Assuntos Europeus e Relações Internacionais do Ministério da Educação, as iniciativas inseridas no DEL serão ministradas no âmbito da Educação para a Cidadania Democrática.

Trabalhos de grupo, leitura de textos, visualização de vídeos e exposição de trabalhos são algumas das acções propostas às escolas. Vai ser também lançado a nível nacional o concurso ‘As Línguas Abrem Caminhos’, destinado a todos os ciclos de ensino básico e secundário.

Edgar Nascimento [in Correio da Manhã]

sexta-feira, setembro 23, 2005

CONFAP critica faltas de material

CONFAP critica faltas de material

Representantes dos pais pedem aos professores algum bom senso na marcação de faltas em virtude da ausência dos manuais escolares.

A Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) rejeitou hoje que estejam a ser marcadas faltas injustificadas aos alunos que ainda não possuem os manuais escolares para este ano lectivo, apelando a que os conselhos executivos das escolas façam imperar o "bom senso". [Educare]

Este exacerbado bom-senso da CONFAP não merece qualquer comentário além da pergunta: Por quem nos tomam?

quinta-feira, setembro 22, 2005

Trabalhar a 100%

A título de brincadeira, cá vai uma coisa que me enviaram. Bem, segundo alguma opinião pública, aplicável aos professores...

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domingo, setembro 18, 2005

Recolocado

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Atirador "ME" tem como alvo o "PROF" ou o ensino?
Finalmente, após me ter sido pedido para dar cinco escolas da minha preferência dentro da minha zona, evidentemente, fui colocado numa escola que não foi uma das minhas escolhas. Enfim, não vou reclamar. O sítio não é mau e vou fazer aquilo que um professor deve fazer: ensinar. Pelo menos, não me vou arrastar penosamente 35 horas por semana a olhar pràs paredes. É giro que só tenha sido colocado na quinta-feira (mais de meio mês após a tomada de conhecimento do erro de colocação por parte dos responsáveis). Em cima do joelho, vou começar a preparar o início do ano lectivo: amanhã, primeiro dia de aulas. Pois é, foi tudo colocado a tempo e horas para o aranque do ano lectivo (ironically speaking)...